Literatura e o cinema brasileiro na educação



1. CINEMA E EDUCAÇÃO NO BRASIL
O cinema no Brasil surgiu no final do século XIX e suscitou discussões sobre suas
possíveis potencialidades. Conforme CATELLI (2003) a vinculação do cinema a educação no
país não constitui uma discussão recente: já no início do século XX, intelectuais, políticos,
educadores e cineastas já discutiam a viabilidade da adoção da produção cinematográfica
como recurso didático nas escolas. É importante ressaltar, nesta perspectiva, que o cinema
ganhou um caráter instrumental voltado para “educação industrial”, visto que no período de
implementação das propostas, os anos 20, vislumbrava-se os filmes literalmente educativos,
ou seja, de caráter didatizador: a intenção, a priori, não é a apreciação do filme enquanto
produção artística, mas sua utilização como um meio de persuadir e sedimentar nas massas
populares certos valores e conceitos defendidos pelas autoridades da época. De acordo com
CATELLI (s/d), a Alemanha Nazista e a Itália Fascista também atribuíram um estatuto
privilegiado ao cinema como educação das massas e propaganda ideológica, tendo sido
criados departamentos cinematográficos vinculados diretamente ao Estado. A estes dois
modelos de uso do cinema como instrumento político e pedagógico é que, mais comumente,
se referiam os formuladores do cinema educativo no Brasil, aparecendo também citações de
experiências realizadas nos Estados Unidos e à produção de filmes científicos franceses.
A literatura educativa sobre os anos 20 e 30 sinaliza que, no que tange a relação
cinema-educação, o mundo discutia amplamente no início do século XX as possíveis
analogias entre o comportamento humano em sociedade e as imagens cinematográficas, de
acordo com CATELLI (2003). As diversas áreas do conhecimento, como medicina,
psicologia, educação, religião e direito, buscavam tratar, como indicam artigos em revistas e
periódicos da época1, o “efeito” do cinema, o impacto da imagem cinematográfica, de que
modo o homem sorvia e processava essas imagens e de que maneiras isso afetava suas idéias
e concepções, e consequentemente, seu modo de agir.
Aqui, não se fala em arte, imagem, conversão e fusão de idéias interdisciplinares (a de
se frisar que não existiam ainda parâmetros e diretrizes curriculares nas diversas áreas das
ciências), mas do cinema tomado, concretamente, como um recurso metodológio, ao passo de
que, em 1937, o governo Getúlio Vargas assina lei nº 378, que cria o Instituto Nacional de
Cinema Educativo, cujo artigo Art. 40 assinala: "Fica creado o Instituto Nacional de Cinema
Educativo, destinado a promover e orientar a utilização da cinematographia, especialmente
1 FERRO, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p.27
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como processo auxiliar do ensino, e ainda como meio de educação popular em geral”2. Mais
tarde, com a criação do Instituto Nacional de Cinema – INC, o cinema educativo ganha um
departamento específico, o Departamento de Filmes Educativos, responsável pela produção e
distribuição de filmes às escolas. Portanto, o que se observa é que, embora já reconhecida a
vocação educativa dos filmes, as produções a que os educadores e as escolas lançam seus
olhares não são obras cinematográficas enquanto arte propriamente dita, mas vídeos
fabricados especificamente para os fins instrucionais da escola.
O fato é que, há um século, o cinema já arquejava viabilidade como ferramenta
pedagógica através de sua instrumentalização didático-formativa, mesmo que considerado
uma ferramenta cujo valor artístico e crítico era complemente ignorado. No Brasil, as
possibilidades didáticas e metodológicas de uso de produções cinematográficas foram se
ampliando, no século XX, através dos anos, no primeiro momento com a criação e
financiamento, por iniciativa do Governo, do INC (Instituto Nacional de Cinema), um
departamento específico cuja atribuição era tratar do cinema no país, e que posterioriormente,
se fundiu a Embrafilme, produtora de cinema financiada pelo governo responsável, além da
produção, pela distribuição dos filmes brasileiros. Mais tarde, a educação no Brasil daria o
salto no sentido de valorizar o cinema como instrumento e conteúdo de ensino: com a
elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais, que preconizam que o cinema - entre
outros textos e mídias produzidos na sociedade contemporânea - devem fazer parte do
currículo de formação dos alunos, tanto como recurso didático como atividade do discurso,
explorada na escola enquanto arte de valor em si mesma.
Culturalmente, o Brasil tem tradição na adoção de filmes, mas trata-se de películas
produzidas especificamente para uso escolar: a adoção de produções cinematográficas
propriamente dita vêm ocorrendo nos últimos 20 anos, a medida em que os recursos
tecnológicos e estruturais, e também a disponibilidade de filmes no mercado comum passaram
a ser maiores.
Até 20 anos atrás, o professor de literatura que se propusesse a realizar um trabalho
dessa natureza esbarraria em um obstáculo intransponível: a carência de produções
cinematográficas brasileiras adaptadas de obras literárias. Houveram sim adaptações
cinematográficas de obras de literatura brasileira nas décadas anteriores, nos anos 60 e 70,
mas o mercado nacional voltou-se para até hoje lembradas pornochanchadas. Isso fez com
que as demais produções fossem “esquecidas” pelo mercado e que consequentemente se
tornassem de difícil acesso ao público em geral. Contudo, esse quadro vem se revertendo nos
2 Ministério da Cultura, Brasil, 2007.
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últimos anos, quando o cinema nacional ganhou fôlego com parcerias e apoio de produtoras
internacionais e ganhando prestígio junto ao espectador brasileiro.
Segundo AUGUSTO (2006), filmes de enredo, no Brasil, começaram a ser produzidos
a partir de 1908, com Nhô Anastácio Chegou de Viagem, de Júlio Ferrez. Ainda na década de
10 e cinema se transformou em um tipo de febre nacional, furor causado não só no Brasil nas
no mundo inteiro. Nas décadas seguintes, a produção cinematográfica no país ganhou
consistência e características próprias, mas foi só na década de 40, com a fundação da
produtora independente Atlântida, que o cinema nacional ganhou força e vislumbrou um
período de prosperidade, que declinou na década de 60 com a popularização da TV. O cinema
nacional viveu um período de hiato quase que total na década de 90, provocado pela extinção
do apoio estatal, medida do então presidente da república Fernando Collor de Mello.
A Retomada, nomeação dada ao período em filmes no Brasil voltaram a ser
produzidos, ocorreu em 1995, com o lançamento de Carlota Joaquina, uma modesta
produção de Carla Camuratti, mas que levou os brasileiros de volta ao cinema. De lá pra cá,
mais especificamente de 1995 a 2001, foram produzidos 167 longa-metragens, de acordo com
a Secretaria de Audiovisual3. A vitalidade da produção nacional nos últimos 7 anos é notável,
sobretudo no evidente número de filmes cujos roteiros são adaptações de obras literárias,
dentre as quais podemos citar Cidade de Deus, Central do Brasil e Lavoura Arcaica, sucessos
de público e de crítica.
Recentes produções têm resgatado também obras clássicas de nossa literatura, como
Memórias Póstumas e Dom, ambas adaptações de obras do escritor Machado de Assis.
Segundo DINIZ (2005, p. 13) “a prática de transformar uma narrativa literária em narrativa
fílmica espalhou-se a ponto de boa parte dos filmes ter atualmente, como origem, não um
script original, criado especialmente para o cinema, mas uma obra literária”.
Sendo assim, o professor de literatura dispõe na atualidade de um conjunto de obras
cinematográficas que lhe seriam de grande auxílio nas aulas, e que poderiam ser utilizados
como instrumentos pedagógicos para um trabalho de formação de leitores.
Essa acessibilidade de que goza, atualmente, o professor de literatura que se propuser a
trabalhar com cinema em sala de aula, advém de uma série de fatores que concomitantemente,
na última década, elevaram o cinema nacional a uma produtividade significativa, sendo que
grande parte destas produções têm o roteiro adaptado de obras da literatura nacional, clássica
ou contemporânea. Dentre estes fatores, pode-se citar os investimentos e apoio por parte do
governo e entidades públicas e privadas, o surgimento de produtoras independentes que
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buscam trabalhos inovadores e criativos, como a O2 Produções Artísticas e Cinematográficas
e Casa de Cinema de Porto Alegre, a captação de recursos internacionais além de parcerias
com distribuidoras de atuação global, como a Universal , Columbia e Paramount. Além disso,
no que diz respeito ao aspecto pedagógico do cinema, este tipo de trabalho ganhou voz a
partir da institucionalização dos Parâmetros Curriculares Nacionais, que enfocam a
importância dos variados tipos de discursos e mídia na aprendizagem.
Outro fator importante para facilitação deste tipo de trabalho didático foi a
popularização do aparelho de DVD player e disponibilização de obras nacionais para mercado
de venda e locação4, além da crescente equipação das escolas da rede pública com aparelhos
de TV e DVD players5, que tornaram significativamente menor o hiato entre o aluno
(sobretudo o aluno carente) e a obra cinematográfica.
Existem também hoje uma movimentação, por parte dos profissionais da área de
cinema – diretores, roteiristas, produtoras, distribuidoras e atores –, no sentido de promover a
divulgação e popularização do cinema, do teatro e da literatura, ações que, em maior ou
menor grau, promovam um possível contato entre alunos e obras cinematográficas. Exemplos
disso são os eventos Mês da Popularização do Cinema e o Projeto Belocine, ambos
instituídos em 2006 pela Câmara Municipal de Belo Horizonte, na tentativa de universalizar a
cultura cinematográfica na capital, assim como já acontece com o teatro na tradicional
Semana de Popularização do Teatro de Belo Horizonte.
Visto assim, pode-se concluir que o trabalho com cinema em aulas de literatura nas
escolas brasileiras já encontra uma série de fatores facilitadores e otimizadores para sua
realização efetiva nas escolas da rede pública.

fonte: www.funcesi.br